Rio 450 Depois dos jogos

Sustentabilidade, Jogos Olímpicos e o impacto na vida do cidadão

Faltando menos de um ano para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos  terem início no Brasil, a Elsevier Notícias ouviu a opinião de Maureen Flores*. Especialista em  Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento e organizadora do livro Sustentabilidade, governança e megaeventos, Flores mostra mostra uma perspectiva sustentável para a realização do evento. Confira:

Falando um pouco sobre sustentabilidade, talvez ainda não esteja claro como os Jogos Olímpicos de 2016 irão impactar nossas vidas no dia-a-dia. De acordo com os estudiosos no assunto, o transporte historicamente melhoraria; o orçamento público também historicamente seria estourado; a habitação melhoraria para alguns mas não todos; a  bolha imobiliária aumentaria a concentração de renda; o aumento temporário do emprego beneficiaria aqueles com as competências específicas necessárias e; na bela festa muitos, mas nem todos poderiam participar.  Bom, como a sustentabilidade se encaixa no cenário micro dos Jogos nas nossas vidas?

Considerando os aspectos econômicos, sociais e ambientais como o tripé da sustentabilidade, no que concerne a Economia, mencionamos acima as questões relacionadas ao transporte, habitação e finanças públicas. Na área ambiental, como os investimentos governamentais em infraestrutura e as compras realizadas pelo Comitê Organizador têm grande impacto na economia local, a adoção dos preceitos da Economia Verde na contratação dessas despesas, que se multiplicam pela cadeia de fornecimento, poderá sem dúvida alguma deixar um legado positivo ao preparar empresas nacionais, principalmente pequenas e médias, para essa nova formatação da Economia, reduzindo o impacto ambiental do evento e abrindo novos mercados.

Gestão de resíduos sólidos será de importância fundamental na vida do cidadão

Mesmo sem entrar em muitos detalhes, considerem que a cidade será toda vestida de banners, placas e outras formas de sinalização (na Copa acontecerá o mesmo), essa linguagem visual permite que as câmeras de televisão ao filmar os Jogos mostrem uma identidade única. Esse sofisticado e difícil trabalho de design é feito através de um programa chamado “Look ofthe Games” e ao final dos Jogos, esse belo material, oferecerá um desafio de conformidade com a nossa legislação de resíduos sólidos, não somente pela dificuldade de reciclagem dada sua natureza (plásticos, tintas e afins) mas pela grande quantidade, que em tempo exíguo, deverá ser removida por uma estrutura de processamento/tratamento de resíduos que já apresenta limitações.  Outro ponto ambiental importante é a qualidade das águas recreativas. Haverá provas de remo na Lagoa Rodrigo de Freitas, um ecossistema frágil localizado em área densamente povoada e que já apresenta problemas; as provas de maratona aquática serão na Praia de Copacabana, a qual no momento que escrevo esse artigo, encontra-se encoberta por uma espuma de aspecto repugnante apesar das informações oficiais atestarem a sua balneabilidade. As provas de iatismo acontecerão na Baia de Guanabara onde a qualidade é muito inferior ao desejado pela população. Portanto, qualquer melhoria nessas condições ambientais será um legado para a população, mas se o cenário permanecer sem alterações essas provas poderão se tornar um grande risco para a imagem da cidade.

Quanto à questão social, ainda não foram realizadas pesquisas isentas que evidenciem a satisfação (ou não) da população com o processo de remoção e suas novas condições de moradia.  Por outro lado, a realização da Paralimpíada, logo em seguida a Olímpiada, oferece uma oportunidade concreta de inclusão dos portadores de deficiência física através da adequação de corredores de acesso dentro da Cidade. Sem dúvida, esse poderá ser um excelente legado.

Mas o que um megaevento sustentável tem que ter de diferenciado?

Um tema importante para a sustentabilidade em qualquer megaevento é inovação. Ainda não sabemos o que está previsto para os Jogos 2016, mas para a Copa 2014 o neurocientista Miguel Nicolelis deverá mostrar ao mundo uma tecnologia nacional, um exoesqueleto controlado pela mente, equipamento que poderá auxiliar pessoas com paralisias corporais severas na recuperação de seus movimentos.

Esses são os temas para a sustentabilidade na realização de Jogos com impacto positivo: inovação, energias renováveis, novas tecnologias, inclusão social, qualidade ambiental, transparência e orçamentos ajustados. Tudo isso é possível.

Como sociedade, não podemos culpar os megaeventos pelo déficit crônico de infraestrutura de nossas cidades, mas sim analisar como esses irão se comportar nesse ambiente. Creio que nossa maior falha até agora tenha sido concentrar nosso foco nos estudos de legado, o amanhã, ao invés de aprofundar a discussão sobre o que está sendo realizado hoje, o tempo em que podemos contribuir para construir as melhorias.

*Maureen Flores é PhD em Políticas Públicas , Estratégia e Desenvolvimento pela UFRJ, Mestra em Política Ambiental pelo Bard College (EUA) e pós-graduada em Políticas Públicas e Sistemas de Gestão Ambiental pela UFRJ. Foi gerente de sustentabilidade do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e atua como consultora e pesquisadora nas áreas de política ambiental, inovação e sustentabilidade. Atualmente é pesquisadora pós-doutoral PNPD/CAPES no departamento de Informática Aplicada da UNIRIO, onde coordena, com a profª. Renata Araujo, o projeto Esporte TEC – uma plataforma tecnológica que visa divulgar a inovação para o esporte.