Qualidade para poucos não é qualidade

Qualidade para poucos não é qualidade

Há países que, fruto de um desenvolvimento econômico e social sustentável, foram capazes de propiciar serviços de qualidade para seus habitantes. Os países nórdicos e alguns asiáticos são exemplos conhecidos. Há países que têm demonstrado incapacidade de propiciar condições mínimas de sobrevivência à sua população e as perspectivas não são boas. Parte da África e alguns países das Ásia e das Américas Central e do Sul podem ser vistos nesta categoria.

O Brasil é uma estranha e complexa nação que não se encaixa em nenhuma das duas categorias acima. É um país que aprendeu a fazer coisas boas e para muitos. Só não aprendeu a fazer essas duas coisas ao mesmo tempo.

E o que nos faz termos perspectiva? É que tivemos substantivos avanços na história recente, evidenciando que podemos avançar muito mais. Citemos três exemplos: a Constituição do final da década de 80 nos conferiu estabilidade política e das instituições, o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal marcaram a década seguinte,viabilizando moeda estável e o planejamento mínimo nas contas públicas e privadas, e, por fim, os avanços sociais da última década, conjugando crescimento com redução de desigualdades sociais.

E o que nos faz sermos tão céticos? Em primeiro lugar que os atributos acima não são suficientes ou sustentáveis. Nossa desejada democracia não nos fez mais confiantes nos políticos, na política e nas instituições, o que é grave. Nossa economia dá sinais de incapacidade de crescimento sustentável, imersos que estamos num mundo globalizado e altamente competitivo, onde exportamos alimentos e minérios (o que é bom) e tendemos a ser mercado importador de praticamente todos os itens de média e alta tecnologias(o que é péssimo). Por fim, nosso enfrentamento de desigualdades sociais não teve, por enquanto, reflexos evidentes na educação, que continua precária, na saúde, que embora universalizada é de má qualidade, e de segurança, cujos índices dão demonstrações de pioras permanentes.

Particularmente na educação, nosso drama está centrado no ensino básico, com a expressão mais grave no ensino médio. Colocamos as crianças na escola, o que foi admirável conquista, mas elas não aprendem o suficiente e não há indicadores confiáveis e significativos de que estejamos melhorando. Poderíamos estar crescendo menos economicamente, mas, desde que estivéssemos melhorando de forma substantiva na educação, o cenário seria positivo, mas este não é o quadro.

Soluções educacionais no horizonte? Um exemplo simples, entre vários: temos o mais caro acesso a internet e de qualidade sofrível, mesmo assim, temos mais de 100 milhões de obcecados usuários, apontando que formamos um caldo cultural próprio e que as tecnologias digitais, conjugadas às metodologias educacionais inovadoras, podem fazer a diferença no futuro educacional brasileiro. Mas isso fica para outro dia neste mesmo espaço.

(Ronaldo Mota é reitor da Universidade Estácio de Sá e professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Maria)