Os cuidados que devemos tomar com as chuvas de verão

Os cuidados que devemos tomar com as chuvas de verão

O verão é a época do ano marcada, além do calor excessivo, pelas fortes chuvas. Elas são as principais causadoras de alagamentos em diversos pontos nas grandes cidades. Para alertar à população de como proceder neste período, convidamos Marcelo Gomes Miguez, Aline Pires Veról, Osvaldo Moura Rezende, autores do livro Drenagem Urbana, da Editora Elsevier, para falar sobre os cuidados e precauções que devemos tomar para evitar as enchentes.

Elsevier Notícias – Com o verão se aproximando as fortes chuvas são uma constante. Qual a importância de termos, em nossas cidades, bueiros limpos, para minimizar os estragos causados pela chuva? No caso de uma pessoa verificar que os bueiros de seu bairro estão danificados, entupidos ou obstruído, a quem deve-se  recorrer?

Seguramente, é importante termos uma rede bem mantida e uma articulação entre os sistemas componentes do saneamento básico, de forma que drenagem, esgotamento sanitário, abastecimento de água e manejo de resíduos sólidos possam ser ofertados de forma integrada, em um contexto de saneamento ambiental sustentável.

Portanto, respondendo especificamente à pergunta formulada, é importante ter os “bueiros” limpos para que a captação das águas pluviais possa se dar de forma adequada. Se uma falha na limpeza pública ou na coleta do lixo, funções do sistema de manejo de resíduos sólidos, ou uma falha de manutenção da rede de drenagem, função do sistema de drenagem urbano e manejo de águas pluviais, compromete a captação nos ralos e bocas de lobo (que são os momes técnicos dos dispositivos que usualmente são chamados de “bueiros”), é provável que a cidade vislumbre alagamentos distribuídos em sua superfície.

Porém, é uma visão curta imaginar que a resposta para os problemas de drenagem urbana vem de uma falha básica de manutenção. Essa situação, certamente, pode ser um agravante, mas há uma longa história por traz dos alagamentos, que está associada com o próprio processo de crescimento urbano, uso e ocupação do solo e provimento da infraestrutura necessária para acompanhar esse processo.

A urbanização tende a introduzir alterações no padrão de uso e ocupação do solo, que, por sua vez, acabam por colocar em movimento uma série de processos que modificam a qualidade do ambiente, tanto natural quanto construído. A remoção de vegetação, a ocupação de áreas com fragilidades ambientais (como as várzeas e margens de rios), a impermeabilização do solo, gerando mais escoamentos e diminuindo os processos de infiltração e retenção, as canalizações, que aceleram escoamentos e transferem problemas, são fatores muito frequentemente encontrados no processo de crescimento das cidades e que agravam os riscos de inundações e alagamentos urbanos.

É relativamente comum hoje encontrar cidades com sérios problemas ambientais, sofrendo degradação da qualidade de vida de sua população e dos próprios ativos urbanos, resultado de excesso de poluição, resíduos sólidos inadequadamente tratados, saneamento insuficiente, escassez hídrica, seja em quantidade ou por déficit de qualidade, e inundações. A água, porém, é um elemento fundamental para as cidades e é importante recuperar esta relação entre água e cidade e utilizar os rios como elementos estruturadores da paisagem.

A verdadeira solução para os problemas de drenagem urbana deve ser buscada no longo prazo, na construção de uma relação harmônica entre os rios, as águas pluviais e o ambiente construído. Entre as ações necessárias, podem-se destacar:

– limitar o processo de impermeabilização;

– utilizar medidas compensatórias em projetos de drenagem urbana, de forma a recuperar características modificadas do ciclo hidrológico, aumentando as oportunidades de infiltração, alongando os caminhos de escoamento, valorizando o escoamento superficial e introduzindo reservatórios para amortecimento de picos de vazões;

– recuperar planícies de inundação, reconectando rios às suas áreas marginais (parques longitudinais alagáveis, caminhos verdes, …)

– utilização de paisagens multifuncionais, agregando controle de cheias, lazer, contemplação, entre outras possíveis funções, buscando reorganizar o resultado dos escoamentos e revitalizar o espaço urbano, também com uma visão social;

– planejar o adensamento urbano e as ocupações futuras, evitando áreas de risco e adotando práticas de controle de escoamento na fonte.

Essas ações são ações de longo prazo, mas essenciais para o equacionamento do problema.

Na cidade do Rio de Janeiro, cabe à Fundação Rio-Águas cuidar dos sistemas de drenagem. Ela estabelece como missão: “Planejar e dotar a Cidade do Rio de Janeiro de sistemas de manejo de águas pluviais visando ao controle de enchentes, à qualidade dos corpos hídricos e a promover o saneamento, garantindo ações sustentáveis e benefícios diretos à população.”

Elsevier Notícias – Como você vê o processo tradicional de drenagem urbana, mediante aos períodos das fortes chuvas de verão? Você acredita que se os planejamentos urbanos realizados pelos governos fossem mais elaborados haveria a redução de obras onerosas de prevenção a inundações?

As práticas tradicionais de drenagem tendem a focar o problema para adequação de condutos e canais ao escoamento resultante. Nessa concepção, a água precisa ser conduzida rapidamente para fora da bacia, de forma a manter sob controle as condições de escoamento. Essa concepção nasce da necessidade de manutenção de condições mínimas de saúde pública, na época da Cidade Industrial. Esta sistemática tradicional ataca a consequência indesejável, que, no caso, é a concentração de um excesso de água nos condutos principais, ocasionado pelo incremento de geração de escoamentos, típico das superfícies urbanizadas impermeáveis.

Essa concepção, porém, muitas vezes é responsável pela transferência dos problemas de alagamento para os trechos situados em áreas mais baixas da bacia (em trechos a jusante). Isso ocorre com certa frequência, uma vez que esta ação apresenta um viés de atuação local, sem uma consideração integrada do sistema. Além disso, quando o crescimento urbano acontece sem controle adequado ou sem  planejamento prévio, este acaba por inviabilizar a solução tradicional, aumentando os volumes de água que chegam ao sistema de drenagem ao longo do tempo, como consequência do aumento de áreas impermeáveis na bacia. Nesse cenário, investimentos adicionais para adequar a rede de drenagem às novas vazões de cheia são recorrentes e insustentáveis, gerando inúmeros transtornos para a urbanização já constituída.

Nesse contexto, se o planejamento urbano (ao longo do tempo, em termos históricos) tivesse sido capaz de manter níveis de impermeabilização sob controle, pudesse ter mapeado áreas de risco, realizado um zoneamento adequado e preservado recursos naturais e parte das funções naturais dos rios, provavelmente seria possível ter menos problemas de drenagem urbana nas cidades de hoje, reduzindo, talvez, a demanda por maiores intervenções de correção do sistema, para adaptá-lo às constantes alterações no padrão dos escoamentos superficiais geradas pelo processo de urbanização.

Considerando estas questões, ao longo das últimas décadas, a concepção tradicional vem sendo complementada ou substituída por conceitos que buscam soluções sistêmicas para a bacia, com intervenções distribuídas, procurando resgatar padrões de escoamento próximos daqueles anteriores à urbanização. A nova abordagem agrega preocupações de manejo sustentável das águas pluviais urbanas, integrando-as com o próprio tratamento do espaço urbano. Medidas de armazenamento de água e incremento da infiltração aparecem como alternativas para tratar as principais modificações introduzidas pelo crescimento da cidade sobre o ciclo das águas na natureza. Essas técnicas são chamadas de técnicas compensatórias, pois buscam justamente “compensar” os efeitos da urbanização sobre o ciclo hidrológico.

Assim, essas novas possíveis soluções, que buscam alternativas mais sustentáveis, precisam ainda (e sempre será assim) de uma articulação com o planejamento urbano para o futuro, para que haja, realmente, um desenho urbano-ambiental-social-legal-institucional sustentável.

A quebra do paradigma tradicional, porém, não deveria significar o abandono das técnicas disponíveis a ele associadas. A combinação de técnicas, de forma integrada, aproveitando a vocação e o potencial de atuação de cada concepção, poderia ser o ponto forte a ser explorado em projetos que buscam efetivamente ser sustentáveis. É necessário que os projetistas sejam capazes de compreender as necessidades de reorganização dos escoamentos da bacia e utilizar todos os recursos técnicos disponíveis para a obtenção de soluções mais duradouras.

Elsevier Notícias – No caso de uma região onde há rede de drenagem pluvial, o nível de água sobe muito devido às chuvas, ocasionando inundação de ruas e casas. A quem os moradores devem recorrer?

Como destacado na primeira resposta, cabe à Fundação Rio-Águas cuidar dos sistemas de drenagem da cidade do Rio de Janeiro. Em outras cidades também existem órgãos responsáveis pelo planejamento e manutenção do sistema de drenagem, mas essa não é a regra. De forma geral, nos municípios brasileiros, a “responsabilidade” pelo sistema fica a cargo das secretarias de obras ou de urbanismo.