Migração de TV analógica para digital tem início este ano [parte 3]

Migração de TV analógica para digital tem início este ano [parte 3]

O Ministério das Comunicações informou, recentemente, no ”Diário Oficial da União” que a previsão para o desligamento da TV analógica no país terá início a partir do dia 15 de fevereiro, no município de Rio Verde, em Goiás. A intenção é que todos os sistemas migrem para o digital até 2018. Para falar um pouco mais sobre o assunto convidamos o autor da Elsevier, Lisandro Lovisolo, e baseado no conteúdo por ele fornecido daremos continuidade a terceira e última matéria da Série TV digital x analógica, falando sobre as: vantagens e dificuldades, entre a TV analógica e a digital. Confira abaixo a segunda postagem da Série.

TV digital x analógica: vantagens e dificuldades

Apesar das vantagens, era impossível substituir todos os receptores analógicos por digitais de uma vez. Entretanto, mesmo assim, se queria e deseja estimular o avanço tecnológico a adoção da nova tecnologia e seus impactos sócio-econômicos, adotou-se assim a transmissão simultânea, mundo afora. Com isso as emissoras de TV passaram a difundir simultaneamente um sinal analógico e um digital. Para isso, cada emissora que realiza a transmissão simultânea ocupa duas faixas dentre as reservadas para canais de TV do espectro eletromagnético, uma para cada sinal difundido. Como o desligamento do sinal de TV analógico, a faixa correspondente será liberada.

A difusão de TV analógica emprega canais nas bandas (espectro de frequências) chamadas VHF e UHF (54 a 88 MHz e 174 a 216 MHz em VHF, e 470 a 746 MHz em UHF, M = 10^6). Porém a primeira é a majoritariamente empregada para a difusão do sinal analógico, de menores faixas frequenciais. Com o apagamento da difusão analógica, as faixas nela empregada estarão disponíveis para prover outros serviços de telecomunicações. Por que as usadas hoje para a difusão do sinal de TV digital não eram usadas no passado para outros serviços? A resposta é complexa, mas há dois aspectos centrais. O primeiro é o estímulo ao uso e a crescente demanda por mais e mais serviços de comunicações. A vantagem no uso das bandas de VHF e UHF para serviços voltados a consumidores frente às usadas hoje (entre 1 e 2,5 GHz, G = 10^9) é o ganho que isso permite no alcance do sistema: observa-se que o alcance de um enlace de comunicações usando o ar como meio de propagação para a onda eletromagnética é inversamente proporcional ao quadrado da frequência empregada, para uma potência de transmissão e sensibilidade do receptor fixas. Assim, por exemplo, para serviços de comunicações o uso da faixa VHF para sistemas de comunicações permite aumentar a cobertura do sistema para a mesma potência de transmissão. Isso, obviamente, desde que a densidade de usuários seja suficientemente baixa, pois, caso contrário, necessitaremos implantar mais antenas e o ganho de cobertura perde um pouco o sentido.

A recepção digital consegue mitigar os efeitos que a chegada de cópias do sinal provocavam na recepção analógica. De forma a resolver esses problemas, redes de TV (retransmissoras de um mesmo conteúdo) usam canais de frequências distintos em regiões geograficamente próximas para a difusão analógica. Isso gera um grande desperdício do espectro eletromagnético. No caso da difusão digital, podemos empregar um único canal, isto é, uma rede de frequência única. Numa rede única, todas as retransmissoras de um mesmo conteúdo empregam o mesmo canal frequencial. Com isso, reduz-se o desperdício e otimiza-se o uso do espectro eletromagnético, que é hoje um dos recursos físicos mais escassos.

A migração total para a difusão digital, com o apagamento da difusão analógica, otimizará e disponibilizará espectro eletromagnético para outros serviços. Diversas bandas dentre faixa de frequências liberada pelo apagamento da difusão analógica têm tido proposições de usos em diferentes países para serviços de telecomunicações. Por exemplo, há países em que essa banda é usada pelos sistemas celulares 4G. Há propostas de adaptação de sistemas Wi-Fi para elas, entre outras. Reparamos que o impacto direto do desligamento do sinal de TV analógica é só para aqueles que recebem TV analógica aberta. Os consumidores de TV por assinatura ou que já possuem receptores de TV digital aberta nada sofrerão. Já os impactos derivados, a utilização da banda para outros serviços impactará potencialmente toda a população. Quanto ao futuro uso do espectro, muito dependerá da posição quanto a se o uso dessa banda irá depender de licença. Muito provavelmente, uma parte será licenciada para sistemas celulares 4G. Outra parte há grande probabilidade de que possa vir a ser usada para a implantação de redes locais sem fio, similarmente ao Wi-Fi, porém devido a especificidade da faixa frequencial mais baixa com área de cobertura maior. Além desses usos para a banda, discute-se hoje a TV de resolução 4K, que possui resolução 4 vezes maior que a HD. Há propostas para operação da TV aberta na resolução 4K, já houve testes de campo desses sistemas. Esse também irão requerer a alocação de mais canais (faixas frequenciais) para sua difusão de forma a complementar a banda usada pelo sistema HD.   

Os novos receptores de TV, os mais avançados suportando resolução 4K, são sistemas digitais complexos, a maioria contém processadores capazes de rodar aplicações como os Smart-Phones, pode-se assim usar os receptores para ações de governo e educação. Na evolução dos receptores de TV, temos hoje as Smart-TVs. Nelas, se rodam aplicativos e se pode assistir conteúdos de diferentes repositórios, alguns gratuitos outros pagos. Isso faz com que o usuário deva dispor de canal de acesso à Internet. Talvez, este seja um sub-efeito de todo o processo: o consumo do conteúdo desejado na TV a partir de qualquer repositório. A propaganda, que tem tradicionalmente sustentado a TV aberta, pode ser agora melhor direcionada ao consumidor. É importante observarmos neste processo, que possui ainda mais aspectos que os elencados, tanta a evolução quanto a convergência entre TV, os mais diversos sistemas e serviços de comunicações e Internet. A convergência em curso mudará muito ainda e rapidamente nossa forma de produzir, transmitir, receber e de assistir e consumir as mais diferentes mídias.