Crise elétrica 1

Especialistas da Unicamp explicam crise elétrica no Brasil – Parte 1

No Brasil, mais de 90% da energia é produzida em hidrelétricas, que dependem de níveis adequados de água em seus reservatórios para que seja gerada. Este ano com a falta de chuvas, uma das maiores das últimas décadas, a distribuição foi prejudicada e visa-se que a população tenha que reduzir em, no mínimo 20%, a quantidade de energia elétrica utilizada. Para explicar um pouco mais sobre o tema chamamos os especialistas Fujio Sato e Walmir Freitas que, baseados em dados da ONS (Operados Nacional do Sistema Elétrico) explicam como o Brasil deverá se portar diante da crise e as medidas que a população e o governo deverão tomar para combatê-la. A entrevista a seguir foi compilada em três textos que serão publicados no decorrer do ano, acompanhando as mudanças na situação elétrica do país.

A Crise de Energia Elétrica  

A energia elétrica é um dos recursos fundamentais da sociedade moderna, que está  disponível a qualquer momento na tensão e na frequência corretas e na quantidade exata  que o consumidor necessita. Para alcançar este desempenho notável, é preciso que o  sistema de energia elétrica seja planejado, projetado, construído e operado obedecendo a critérios técnicos rígidos e dispondo de recursos financeiros e humanos compatíveis.  Para o consumidor, em geral, o sistema elétrico parece comportar-se sempre em  estado permanente, imperturbável e com capacidade inesgotável; entretanto, por ele ser  altamente interligado, composto por uma variedade imensa de equipamentos e a sua rede de transmissão e distribuição abranger uma vasta área geográfica, ele está sujeito a  constantes perturbações causadas por: fenômenos naturais, condições ambientais  adversas, falhas nos equipamentos e nas instalações ou ações humanas inapropriadas.  Essas perturbações, na grande maioria das vezes, provocam curtos-circuitos, que impõem mudanças bruscas e violentas nas grandezas elétricas, causando impactos negativos na  operação normal.

O sistema elétrico brasileiro, denominado Sistema Interligado Nacional (SIN), é altamente interligado e está entre os maiores do mundo em extensão territorial.  O SIN, formado basicamente por empresas de geração, transmissão e distribuição do Brasil, permite o intercâmbio de energia elétrica entre as diversas regiões brasileiras [1].

Um sistema com essa dimensão, obviamente, está sujeito a constantes perturbações, que na maioria delas os seus efeitos são minimizados através de ações corretivas sem que os consumidores sejam afetados. Os casos graves de perturbação podem provocar desligamentos de geradores e linhas de transmissão importantes, causando o chamado blecaute (aportuguesamento do termo inglês black out, que significa interrupção acidental de fornecimento de energia elétrica) ou apagão (o termo apagão veio substituir a palavra blecaute e passou a se referir também a  desligamentos propositais e programados). Para minimizar a área de abrangência de um apagão, proteger os equipamentos e as instalações e agilizar o restabelecimento, a operação do sistema de energia elétrica é provida de procedimentos operativos preestabelecidos, dispositivos apropriados e automatismos adequados. Os relés de proteção são dispositivos automáticos que, junto com outros equipamentos convenientemente interconectados ao sistema, têm a função de detectar as condições intoleráveis ou indesejáveis dentro de uma zona preestabelecida e isolar rapidamente a parte afetada.

Tanto para dimensionar corretamente os equipamentos e as instalações elétricas como para especificar e calibrar adequadamente os relés de proteção, é imprescindível o conhecimento prévio dos valores das grandezas elétricas durante as perturbações.

No Brasil cerca de 90% da energia elétrica é produzida por usinas hidrelétricas, que são altamente dependentes do ciclo de chuvas para manter o nível adequado de seus reservatórios para a geração de energia. As regiões Sudeste (SP, MG, RJ e ES) e Centro -Oeste (DF, GO, MT e MS) são responsáveis por 70% da geração de energia elétrica do SIN [2].

Em 2001, a população brasileira foi forçada a mudar drasticamente seus hábitos de consumo de energia elétrica motivado pelo risco eminente de corte de energia elétrica, um acontecimento que ficou conhecido como apagão, que teve início em 1 de julho de 2001 e se estendeu até 19 de fevereiro de 2002 [3].

Esta crise foi ocasionada por uma conjunção de fatores, a saber:

  • Falta de planejamento e ausência de investimentos na geração, transmissão e  distribuição, causando um descompasso entre a oferta e a demanda de energia elétrica;
  • Estiagem prolongada, ocasionando o abaixamento dos níveis dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste (em fevereiro de 2001 chegou a 33% da capacidade);
  • Falta de linhas de transmissão, que impediu o remanejamento de energia elétrica da região onde havia sobra para a região onde havia escassez.

Para contrapor a crise o Governo Federal teve que preparar um plano de contingência lançando mão da Medida Provisória Nº 2.152-2, de 1º de junho de 2001, que estabeleceu as regras do racionamento de energia e criando a Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica – GCE [4].

A GCE coordenou o Programa Emergencial de Redução do Consumo de Energia Elétrica que basicamente consistiu na redução de 20% do consumo residencial de energia elétrica, tendo como base o consumo médio dos meses de maio, junho e julho de 2000, a partir de 1 de julho de 2001. Os consumidores que ultrapassassem esta meta estavam sujeitos a suspensão do fornecimento. Além disso, havia o acréscimo de tarifa para os consumidores que ultrapassassem 200 kWh por mês, independentemente da meta de consumo fixada [4].

Apesar das medidas draconianas este plano teve êxito, graças ao engajamento dos consumidores e que aliadas às chuvas no final de 2001 o racionamento pôde ser suspenso em 19 de fevereiro de 2002.

Referências

[1]  http://www.eletrobras.com/elb/natrilhadaenergia/energia-eletrica/main.asp?View={05778C21-A140-415D-A91F-1757B393FF92}    

[2]   http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/03/reservatorios-de-hidreletricas-ja-tem-nivel-proximo-ao-da-epoca-do-apagao.html 

[3]  http://www.brasilescola.com/historiab/apagao.htm

[4]  http://www.estadao.com.br/arquivo/economia/2001/not20010605p13067.htm

 

Artigo escrito por: Fujio Sato e Walmir Freitas, autores do livro Análise de curto-circuito e princípios de proteção em sistemas de energia elétrica, da Editora Elsevier.