Duelo FBI x Apple sob a visão de Risco Digital

Duelo FBI x Apple sob a visão de Risco Digital

Em março deste ano, uma linha tênue e que motiva diversos posicionamentos – contra ou a favor – foi de fato posicionada. Pensamos muito hoje em dia, nas questões de liberdade de privacidade, uma vez que, quando compartilhamos algo mesmo que de forma privada ou criptografada, nossos dados estão ali dentro da rede para que qualquer um com o nível de tecnologia mais elevado possa se apropriar sem que nem mesmo saibamos. Foi o que ocorreu no caso Apple e FBI, que brigaram judicialmente por informações que poderiam estar armazenadas no celular de um dos participantes de um ataque terrorista na Califórnia em dezembro de 2015. Por um lado estava a Apple querendo proteger os dados do usuário, e se recusando a desbloquear o aparelho, e de outro o FBI querendo acessar aquelas informações para dar continuidade ao caso. Para falar se há ou não privacidade na web e explicar melhor o caso, convidamos o especialista em defesas cibernéticas e autor do livro Risco Digital na Web 3.0, publicado pela Elsevier, Leonardo Scudere. Confira o artigo do autor na íntegra:

Após toda a visibilidade deste caso e dos múltiplos debates onde cada uma das partes polarizou  simpatizantes aos seus argumentos, que em linhas gerais, convergem para o dilema que expus nos livros sobre os limites aceitáveis da privacidade e da segurança no novo ambiente digital.

Por definição, um dilema é uma situação que não resulta uma solução linear. Nunca haverá um completo vencedor porém uma decisão impõem-se para a questão em pauta pelas características e/ou necessidade de urgência do evento gerador.  

De um lado a Apple através de seu pragmático CEO, Tim Cook  buscou uma linha de argumentação em que os milhões de usuários e fãs do iPhone não ficassem decepcionados com a empresa, em especial, com sua preciosa aura e percepção de valor, que foi habilmente construída em torno da marca como uma expressão da liberdade de expressão.

A Apple vem desde a divulgação comercial da campanha de relançamento do Macintosh (exibido pela primeira vez durante o Super-Bowl de 1984), tentando reafirmar ao público que sua marca é voltada para o seu consumidor, que os produtos Apple não são acessórios ou eletrônicos, mas escolhas de vida. Esses argumentos fielmente defendidos pela Apple, derrubaram, inclusive, sua grande concorrente na época a IBM. Agora imagine quão contraditório seria para os princípios fundamentais da empresa e seus consumidores, se ela viesse a público e ‘’cedesse’’, a um um pedido do poder executor (FBI), os dados do iPhone de um usuário, por meio de um “backdoor” para que eles pudessem ter acesso a essas informações e dessem continuidade às investigações?

Embora a aura de empresa,  que contesta o sistema vigente,  esteja um tanto pálida apos a morte de Steven Jobs e do conhecimento público de diversas práticas de produção não alinhadas com estes princípios, criar esta função traria um severo golpe no imaginário de rebeldia de bilhões de consumidores. Por outro lado os investigadores do FBI não podiam ficar apenas assistindo a este debate filosófico e tinham um trabalho prático a fazer.

O dilema resolveu-se temporariamente pela premissa do senso de urgência e o FBI simplesmente usou equipamentos de descriptografia, comercialmente disponíveis, e informou ao público como a Apple obteve sucesso nesta tarefa e teve acesso a todas as informações do iPhone de Syed. Estando sob a pressão que novos possíveis atentados viessem a ocorrer e que naquele dispositivo em particular poderiam estar dados relevantes (como as causas do ataque que resultou em 14 mortes em San Bernardino, Califórnia), tomou-se a decisão de quebrar a criptografia usando estes dispositivos fornecidos por uma empresa de Israel e,  portanto,  chegar ao resultado.

A Apple surpreendida com a perda imaginaria do controle dos seus iPhones, reagiu anunciando que irá elevar substancialmente os níveis de segurança e criptografia do seu sistema operacional”. Penso que para o público em geral e a comunidade de negócios esta súbita solução criou ainda mais dúvidas do que certezas quanto aos seus direitos de privacidade.

Poderia responder com várias passagens dos livros que consistem na reeducação dos usuários para o uso das plataformas digitais. Houve uma evolução brutal nas capacidades de processamento dos dispositivos que tornou a existência digital possível para bilhões de usuários. Os hábitos de uso, porém, adquiridos nas gerações anteriores e mesmo para novas gerações, aqueles “nativos digitais” chegando aos propriamente “compulsivos” que praticamente refletem nos dispositivos e nas plataformas (onde os dados estão em servidores localizados em algum local do planeta) desde suas mais íntimas atividades até fatos banais e de conhecimento público. Como enfatizo “não-há-privacidade-digital”. Irrelevantes e inúteis as sugestões sobre a formação de grupos de trabalho ou comitês de estudos para buscar limitar, classificar ou criar controles sobre o público x privado.

Isto simplesmente não é mais possível. Toda informação uma vez inserida na matriz digital da Internet a ela passará a pertencer, eternamente.

Artigo escrito por: Leonaro Scudere autor do livro Risco Digital na Web 3.0

Imagem: Google