Crise hídrica ainda é uma preocupante no país

Crise hídrica ainda é uma preocupante no país

Embora a quantidade de chuvas no verão tenha sido boa, e das previsões indicarem que o ano de 2016 será menos dramático do que foi 2015, especialistas alertam que os níveis de água ainda são considerados baixos e que a partir do outono, o Sudeste entra em período de escassez de chuvas. Para auxiliar a população diante desta crise, convidamos o autor do livro Indicadores de Sustentabilidade em Engenharia – 1ª ED(editora Elsevier), Antonio Carlos Zuffo para falar sobre o caso. Confira a entrevista abaixo:

1 – Mesmo com o aumento do volume útil dos reservatórios do Rio de Janeiro de 2,39% em 2015 para 19% em janeiro deste ano, como você vê o cenário hídrico no Brasil após o verão (época do ano marcada por muitas chuvas)? E o que a população pode fazer para minimizar a possibilidade de uma nova crise?

RESPOSTA: Não vejo com olha otimista não. Eu acredito que adentramos na fase mais seca do Efeito José – efeito climático de 30a 50 anos como precipitações mais altas ou mais baixas que o observado em um mesmo período de tempo correspondente – assim como vivenciamentos em meados da década de 1970, na qual verificamos um aumento das precipitações e vazões. Agora devemos observar o oposto. Este último período úmido – primavera e verão – coincidiu com a ocorrência do efeito El Niño que quando ocorre tráz mais chuvas para a região Sul da América do Sul, como observamos nos noticiários a respeito das cheias nessa região. Pouco nos afetou, mas ajudou com alguma recuperação dos reservatórios da região Sudeste. Porém, todo efeito El Niño é seguido por um efeito La Niña na sequência, o que representa uma diminuição das chuvas em relação à média histórica. Outra característica já enfatisada em sua pergunta diz respeito ao período seco de 6 meses correspondente às estações de outono e inverno na região Sudeste. A partir de Abril deveremos observar uma redução das precipitações até outubro, que deveria ser úmido, mas pela ação do efeito La Niña (ou anti El Niño) deveremos esperar por poucas chuvas, o que deve no levar para mais um período de restrições ao uso da água, e assim por mais duas décadas. Teremos que nos adaptar a uma situação que foi enfrentada pela população do Sudeste nas décadas de 1940 à 1970. Somente para depois voltar a aumentar as chuvas novamente por mais 3 ou 4 décadas.

2 –  No Brasil, a taxa de desperdício de água chega a 37%. Sendo a maior parte das perdas, causadas por ligações clandestinas e hidrômetros quebrados ou adulterados. Quais medidas o governo e as empresas privadas responsáveis pelo abastecimento de água devem tomar?

RESPOSTA: Creio que a maior parte das perdas ocorrem na distribuição por vazamentos nas redes de abastecimento. Também existem os “espaguetes ou macarrão” (“gatos” da água), mas as perdas por rompimento da rede é maior. Tem que haver um programa perene de recuperação e substituição das redes antigas, as mais sujeitas à vazamentos por fadiga ou rachadura do material. Este programa deve substituir de 2% da rede por ano, pois assim, ao final de um período de 50 anos, já estaríamos substituindo novamente a rede. Aumentaríamos nossa eficiência na distribuição de água e adiaríamos a necessidade pela busca de novos mananciais para atender à demanda. Outra forma de economizar água seria pela substituição de equipamentos hidro sanitários mais eficientes, reuso direto, e aproveitamento das águas de chuvas para usos menos nobres.

3 – Quais são suas considerações em relação ao esquema adotado em algumas cidades de abastecimento em rodízio, em que uma parte da população recebe água pela manhã, e outra parte no período da tarde?

RESPOSTA: Esta é uma prátia adotada para gerenciamento da crise de abastecimento. Não há o que criticar. A crítica sim é feita por ter se chegado a esta crise, que deveria ser evitada se houvesse tido planejamento de bacias hidrográficas, em que se deveria ter especificado quais as ações a serem realizadas para evitar a crise de abastecimento. Deveríamos ter segurança hídrica suficiente para evitar o desabastecimento. Não precisaríamos de caixas d’água em casa, pois a segurança hídrica nos garantiria o abastecimento perene. As caixas d’água que foram essenciais para nos garantir o atendimento às nossas necessidades é o maior símbolo da falta de segurança hídrica. Caixas d’água sem tampa ou sem limpezas periódicas podem ser fontes de contaminação ou de criação de mosquitos transmissores de várias doenças, como essas que atingem grande parte do País nos dias atuais como a Zika, Chikungunya e Dengue.

4 – Para evitar a falta d’água no país diversas técnicas estão sendo desenvolvidas, dentre elas: elaboração de uma tecnologia para tirar o sal da água do mar, reutilização da água das estações de tratamento de esgoto e investimento em saneamento básico, para que os rios fiquem limpos. Quais dessas você considera mais eficaz?

RESPOSTA: A dessalinização da água do mar consome MUITA energia, e com os preços atuais da energia elétrica este tratamento pode tornar o preço da água mais salgado, porém seria uma alternativa para as cidades litorâneas. Para a cidade de São Paulo, localizada no Planalto Paulista haveria um custo ainda maior que corresponderia ao valor do bombeamento de uma grande vazão, o que também aumentaria o custo desta água exponencialmente. A utilização do efluente tratado também seria uma opção, porém, o que restringe o uso atualmente é a falta de uma regulamentação. É proibido o uso dessa água para abastecimento público, somente é autorizado para o uso industrial, no entanto, a legislação permite que este efluente seja lançado em um ponto do rio, e três metros depois permite que a água deste rio seja captado para abastecimento. Desta forma, muitas vezes o efluente pode ter características de qualidade muito superior às águas de um curso d’água, mas é considerado como vazão “natural”,o que é um contra senso, pois gasta-se recursos para tratar o efluente e não pode utilizá-lo diretamente, há a necessidade de lançá-lo no rio, para depois de misturado com a vazão “natural” ser novamente captado e tratado para abastecimento. Isto tem que mudar.

Creio que a médio e longo prazos seja melhor o tratamento de efluente, que gradativamente melhoraria qualidade de nossos cursos d’água o que permitiria um aumento da disponibilidade de água pela qualidade, pois há muitos cursos d’água que tem água em quantidade mas não possuem qualidade suficiente para serem utilizados, a exemplo dos rios Tietê e represa Billings na Região Metropolitana de São Paulo. Se essas águas estivessem limpas, a RMSP não teria passado pelo estresse de racionamento que passou nesses últimos 2 anos, e que passará nos próximos 2 anos pela frente.

5 – Pesquisas recentes apontam que se até 2035 nenhuma medida for tomada efetivamente, haverá um colapso no sistema de abastecimento de água potável no país. Você também acredita que o quadro tende a piorar tão drasticamente neste prazo?

RESPOSTA: Se não investirmos em tratamento de efluentes, estaremos comprometendo a qualidade dos cursos d’água e reduzindo a disponibilidade por qualidade. Se investirmos em tratamento de efluentes e no reuso desta água, aumentaremos a disponibilidade de água e garantiremos um desenvolvimento sustentável. Pois estaremos reciclando esse recurso tão valioso e tão menosprezado atualmente.