Com a Inglaterra fora da UE o que acontece?

Com a Inglaterra fora da UE o que acontece?

Essa é a pergunta que não quer calar e que tem movimentado a imprensa mundial nas últimas semanas. A histórica decisão da Inglaterra em deixar a União Europeia deflagrou uma crise política que remodelará a estrutura partidária do país. Foram mais de 17 milhões de britânicos apoiando a saída do Reino Unido da UE. Jamais tantos britânicos votaram a favor de alguma coisa.

Com a incerteza e as dúvidas instauradas, muitas são as conjecturas que se formam a cerca dessa ruptura. Para tentar explicar melhor os motivos que levaram a essa saída e quais consequências essa história irá deixar, a Elsevier Notícias convidou a especialista em Relações Internacionais, Mestre e Doutora em Ciência Política, e autora dos livros A União Europeia e Os Estados Unidos e o Século XXI, Cristina Soreanu Pecequilo, para falar sobre o tema. Confira a entrevista na íntegra:

EN – Quais os pontos principais que motivaram a Inglaterra a sair da União Europeia?

Cristina Pecequilo – A Inglaterra vive, nos últimos anos, um momento de pressão das forças mais nacionalistas e conservadoras à direita, que coloca em xeque sua vocação mais universalista. Parte disso, é derivado da crise econômica, em particular a partir de 2008, que se acentuou com os dilemas dos refugiados nos últimos dois anos. Esta ascensão da xenofobia e a externalização dos problemas internos do país acabou levando ao resultado pró-saída, explorando alguns sentimentos sempre latentes entre os mais velhos principalmente. Para uma geração mais antiga, os problemas da Inglaterra sempre foram atribuídos à integração e para muitos, sequer deveriam ter entrado no bloco nos anos 1970 (lembrando que inclusive a Inglaterra nunca chegou a fazer parte da zona do Euro, não querendo abrir mão da sua soberania monetária). Mas não podemos esquecer que foi uma votação apertada, o desejo de isolamento teve apenas 51% do votos. Embora seja a maioria, é uma maioria frágil.

EN – O que significa quando um país sai da União Europeia? As relações diplomáticas e comerciais são cortadas entre esses países?

Cristina Pecequilo – A partir do momento que um país deseja sair da União Europeia (e neste caso é o Reino Unido composto por diversos países, lembrando que alguns votaram pela permanência no bloco como a Escócia) inicia-se um processo de transição justamente para readequar as relações diplomáticas comerciais. Como é algo inédito, pouco se sabe ainda da operacionalização. Alguns falam em dois anos para que todo o processo se complete, outros pedem mais velocidade. Mas, por exemplo, ao sair, os cidadãos não poderão mais usar o passaporte europeu, que facilita a livre circulação de pessoas, há a perda de benefícios econômicos como a inclusão no mercado comum e acesso a financiamentos europeus.

EN – Como a saída da Inglaterra da UE afetará sua organização econômica?

Cristina Pecequilo – O maior efeito para a Inglaterra será justamente no seu acesso aos mercados europeus, com base nos benefícios e preferências do mercado comum. O país perderá este acesso preferencial e terá que passar a negociar bilateralmente com seus parceiros. Além disso, se inibe qualquer possibilidade de investimentos europeus no país. Além disso, passará a negociar sozinha em organismos multilaterais como a OMC e não mais em bloco.

EN – Qual será o impacto para o comércio externo? Isso refletirá nas importações e exportações de outros países?

Cristina Pecequilo – O impacto pode ser bastante negativo, porque a Inglaterra perderá seu acesso preferencial ao mercado comum europeu e seu foco novamente serão as relações bilaterais. Além disso, outros países europeus podem preferir as facilidades do comércio intrabloco e não de ter que negociar acordo a acordo com um ‘’ente separado’’. No geral, a Inglaterra perde mais do que a União Europeia em termos concretos por conta dos riscos do desvio de correntes de comércio.

EN – A saída da Inglaterra da União Europeia pode apresentar um ônus para as relações comerciais de seus parceiros do continente europeu?

Cristina Pecequilo – Mais difícil será para a Inglaterra do que para os demais parceiros. Pragmaticamente, estes parceiros podem manter seu comércio intrabloco e desviar suas preferências para outros mercados locais, em detrimento do inglês. Este desvio de comércio, a perda da facilitação em negociações e mesmo em viagens internacionais será bem custosa para a Inglaterra.

EN – Você acredita que a União Europeia pode estar perto de deixar de existir?

Cristina Pecequilo – A União Europeia já passou por muitas crises e esta é apenas uma delas, e que poderá ser superada assim como foram as outras. O que a saída da Inglaterra mostrou foi um sinal de alerta de uma tragédia já anunciada: o crescimento do nacionalismo e da xenofobia impulsionados por uma direita conservadora e radical, que apela ao medo dos cidadãos para crescer. O que a União Europeia precisa fazer é redemocratizar e ampliar suas bases, respondendo ao desafio desta direita com maior quantidade de direitos e benefícios, com maior validação da identidade europeia independente destas correntes radicais. O voto inglês demonstra que são necessários ajustes, ajustes esses, que se fazem necessários desde 2008, mas que têm sido adiados, para enfrentar a crise econômica, a onda de refugiados e os desafios sociais e humanos associados a estes dois fenômenos. Falta um compromisso maior com a democracia e a integração, e o efeito demonstrativo do voto inglês só poderá ser barrado com maior desenvolvimento e respeito. É preciso, no fundo, voltar as bases da integração e a seus ideais de paz, interdependência e cooperação para superar o momento atual. Ou seja, a União Europeia precisa de mais uma reinvenção.