Chegam as águas de março

Chegam as águas de março

Hoje damos ”até logo” a fevereiro e um ”olá” ao mês que é conhecido, até mesmo em música, pela sua representatividade no quesito chuva. Não é novidade para a população de muitas regiões do Brasil, a presença das fortes chuvas e alagamentos nesta época do ano. Para alertar à população de como proceder neste período, convidamos Marcelo Gomes Miguez, Aline Pires Veról, Osvaldo Moura Rezende, autores do livro Drenagem Urbana, da Editora Elsevier, para falar sobre os cuidados e precauções que devemos tomar para evitar as enchentes.

Elsevier Notícias – Já se fala de drenagem urbana sustentável. Essa seria uma boa opção para sanar o problema das fortes chuvas presentes nesta época do ano?

O conceito de drenagem urbana sustentável vem evoluindo desde o início dos anos 1970 (aproximadamente). Pode-se interpretar a evolução da conceituação em drenagem urbana como uma construção sucessiva, a partir de um princípio básico: a substituição de medidas concentradas na condução de água, por medidas que buscam recuperar funções hidrológicas alteradas pela urbanização.

Assim, primeiro surge a necessidade de introduzir medidas de armazenamento e infiltração. Depois estas medidas são integradas em uma mímica da hidrologia em seu ciclo natural. Mais adiante expande-se o conceito para além da própria drenagem, procurando integrar as várias áreas do saneamento e a água como recurso, valorizando também a sua interação com a cidade, agregando valor a esta e gerando oportunidades de incremento de biodiversidade.

Por fim, ainda com problemas de cheia permeando as cidades, o conceito sai do contexto exclusivamente técnico para uma esfera em que se busca um arcabouço maior, com desdobramentos sociais, econômicos, legais e institucionais. Neste contexto, tanto o processo de urbanização quanto o controle do uso do solo urbano devem ser pensados de forma a minimizar os impactos sobre o ambiente natural.

No processo de construção de um projeto de drenagem sustentável, portanto, todos os elementos do ciclo hidrológico e suas interconexões devem ser considerados concomitantemente para alcançar um resultado que sustente um ambiente natural saudável e atenda às necessidades humanas, otimizando as relações custo-benefício da infraestrutura e da forma construída, melhorando a qualidade de vida da população e proporcionando maior segurança de oferta dos recursos e uma maior resiliência no futuro.

Para este fim, podem ser introduzidas medidas distribuídas sobre a paisagem urbana, em diferentes escalas, a fim de reduzir ou retardar os picos de cheias, permitir a recarga das águas subterrâneas e procurar restaurar as condições do escoamento natural aproximadamente aos padrões existentes antes da urbanização. Diferentes concepções de reservatórios de armazenamento e dispositivos de infiltração são as medidas adequadas disponíveis para chegar a uma abordagem de drenagem mais sustentável. No entanto, a combinação destas medidas com as características da paisagem urbana ganha destaque no conceito de cidades sensíveis à água, assumindo características de paisagens multifuncionais e integrando corredores verdes. Lagoas de detenção associadas a praças públicas, parques ou outras áreas de lazer, jardins ornamentais, capazes de maximizar a infiltração são alguns exemplos interessantes destas possibilidades.

Conforme pode ser observado, a partir dessa discussão, pode-se dizer que essa abordagem é desejável para enfrentar e sanar os problemas decorrentes das chuvas que assolam a cidade. Com essa concepção da drenagem sustentável, passando a ser conhecida como Manejo Sustentável de Águas Pluviais, as ações não mais se restringem a intervenções físicas na rede de drenagem, mas buscam também adotar medidas não estruturais para harmonizar a convivência entre cidade e chuvas, dentro de um contexto de gerenciamento do risco de inundações.

Elsevier Notícias – Quais as medidas que a população deve tomar em dias de tempestade?

A cidade do Rio de Janeiro conta com o Sistema Alerta-Rio, que classifica condições de chuva conforme 3 níveis de alerta:

1) Estágio de Normalidade – Situação em que não há previsão de chuva ou previsão de chuva fraca a moderada nas próximas horas. Os operadores realizam apenas monitoramento das condições meteorológicas.

2) Estágio de Atenção – Previsão de chuva moderada, ocasionalmente forte/muito forte, nas próximas horas, podendo causar alagamentos e deslizamentos isolados, e transtornos pontuais que provoquem reflexos na mobilidade. Neste estágio os operadores do Alerta Rio estão em constante comunicação com os órgãos municipais que atuam nas situações de chuva.

3) Estágio de Crise – Previsão de chuva forte, ocasionalmente muito forte nas próximas horas, podendo causar múltiplos alagamentos e deslizamentos, e transtornos generalizados em uma ou mais regiões da cidade. Nesta situação as equipes emergenciais da Prefeitura já estão atuando.”

A Rio-Águas integra também o Centro de Operações da Prefeitura do Rio, que integra 30 órgãos que monitoram, 24 horas por dia, o cotidiano da cidade. O Centro integra todas as etapas de um gerenciamento de crise, desde a antecipação, redução e preparação, até a resposta imediata às ocorrências, incluindo chuvas fortes, deslizamentos e acidentes de trânsito.

Dessa forma, em dias de tempestade, a população deve seguir as orientações oficiais dadas pela Prefeitura. Em situações de crise, a população deve evitar sair de casa e se expor.

Elsevier Notícias – O que a população deve fazer para ajudar a evitar as enchentes?

A participação da população é fundamental. Em última análise, cada edificação é uma estrutura geradora de escoamentos e há uma série de possibilidades de controle local, na fonte. Assim, é possível reter parte da água pluvial em jardins, ou armazená-la em reservatórios de lote, para posterior aproveitamento em usos menos nobres (como rega de jardins ou descargas), ou ainda utilizar pavimentos permeáveis nas áreas calçadas, para diminuir o aporte de vazões às redes de drenagem.

Além disso, as práticas de descarte de lixo e resíduos sólidos devem ser feitas de forma adequada, para evitar entupimento das redes de drenagem. Não se pode, por exemplo, descartar lixo diretamente nas ruas ou nos rios.

Imagem: Pixabay