Terrorismo

Autor da Elsevier comenta aumento dos episódios de terrorismo na Europa

A MÍSTICA E A PERSISTÊNCIA DO TERROR

O terrorismo não é um fato novo na História e desde os mais antigos testemunhos, atos de terror – individuais ou coletivos – foram cometidos, durante guerras ou de forma isolada, visando aterrorizar um   povo e, consequentemente, paralisar seu governo.

A novidade, apenas relativa, do terror nos nossos dias advém de sua ampla, quase total imprevisibilidade em termos de alvos e da extensão do campo de ação de seus agentes. O terror clássico, usado como forma de luta do mais fraco, ou desorganizado, contra o mais forte – como nos casos do ETA, na Espanha ou o IRA, na Grã Bretanha, possuía alvos fixos – como militares, políticos, policiais, membros do sistema judicial local. Hoje, o terror praticado por organizações como a Al-Qaeda ou mais recentemente o ISIS (ou Estado Islâmico, centrado na Síria e no Iraque) caracterizam sua ação por seu caráter massivo, atingindo indiscriminadamente agentes do estado adversário e também sua população (não fazendo distinção entre civis e militares), ou mesmo a população de países não diretamente envolvidos no conflito em pauta. Em segundo lugar, caracteriza-se por sua amplitude geográfica. Os atentados desta natureza estendendo-se de Bali a Nova York, de Londres e Paris até Buenos Aires, obrigam a um estado permanente de vigilância e prontidão em cidades dos mais diversos países.

Grandes eventos mediáticos, como a Festa Nacional em Boston, em 2013, ou nas Olimpíadas de Munique de 1972, são típicos desta nova fase do terror: a busca de uma publicização imediata, algumas vezes em tempo real, com a presença de câmaras filmadoras, repórteres, tevês …. Mesmo o atentado de 11 de setembro, num centro turístico movimentadíssimo e com o intervalo cronometrado entre os choques contra as torres do World Trade Center, buscava a garantia da presença da mídia, transformando, de forma cruel, o terror em espetáculo de massa.

A causa mais imediata da sedução perversa por esta forma de luta baseia-se, largamente, na frustração e na raiva acumulada por três gerações de muçulmanos, em especial na Palestina, Paquistão, Caxemira, Síria, Líbia e Iraque, resultantes de uma sucessão de governos corruptos, ineptos e associados à intervenção estrangeira. Muitas vezes, o próprio Ocidente, os Estados Unidos e a França à frente, criaram (e mesmo apoiaram) organizações que voltar-se-iam contra seus próprios cidadãos, como no caso da Al-Qaeda e do próprio ISIS na Síria.

De qualquer forma, a antiga busca de segurança e de garantias, seja em prédios de escritórios, aeroportos, metrôs ou prédios públicos, tornou-se, em nossos dias, bastante ilusórias. Em eventos coletivos, onde se garante a presença de delegações de diversos países envolvidos nos conflitos mais intensos, e de ampla cobertura mediática, os riscos são extremos.

O terror revela, dessa forma, uma outra face: a obsessão, por parte de seus alvos e dos estados com a obrigação de combater a ameaça terrorista, com a segurança, o controle e a informação, gerando imensas instituições de espionagem e de investigações prévias, em nome da própria segurança cidadã, que podem facilmente invadir a privacidade e as garantias da própria cidadania. O Caso Wikileaks e o Caso Snowden, em 2010 e 2013, revelaram parte da imensa máquina de espionagem e controle funcionando em nome da segurança e que, todavia, não conseguiu deter os últimos atentados.

Desta forma, o terror obriga a uma revisão das políticas externas de grandes potências e aguça a preocupação com o destino de povos submetidos às longas experiências de humilhação e submissão, aliadas à pobreza, e, ao mesmo tempo, exige que sejam propiciadas reais garantias de segurança aos cidadãos e aos estados sem, contudo, ofender o Estado de Direito e as garantias individuais.

Eis aí um brutal desafio para as instituições do Estado democrático-representativo.

*  Escrito por Francisco Carlos Teixeira da Silva, Professor Titular de História Contemporânea/UFRJ/UCAM e Professor Emérito da ECEME/Exército Brasileiro.