Acidentes com Barragens de Rejeito

Acidentes com Barragens de Rejeito

Recentemente o Brasil e o mundo ficaram chocados com as consequências da ruptura de uma barragem de rejeito em Mariana, MG. Esse evento se fosse isolado, ou distante em área remota e inóspita, ou ficasse circunscrito a área da empresa, ou ainda em outra época no passado talvez não tivesse tanta repercussão como teve e continua, alimentando com frequência os noticiários. A sociedade com razão está preocupada e demanda respostas e mudanças por parte das empresas mineradoras na forma de gerenciamento dos seus rejeitos, e do governo que tem o dever de regular e fiscalizar a atividade.

O acontecido em Mariana teve infelizmente precedentes recentes no Brasil (Itabirito) e em outras partes do mundo, com destaque para a barragem de Mount Polley no Canadá com proporções semelhantes ao caso brasileiro. O problema quando acontece acidentes como esses é que haja uma reação exagerada e intempestiva e de curta duração, com soluções imediatistas e até irresponsáveis, e o que é pior sem se tirar lições dos acontecimentos de modo a aprimorar os processos, tão importante para o desenvolvimento da engenharia em geral. Aqui vale um paralelo com a aviação.  Quando cai um avião a comoção é grande e a perda infinita para os familiares e amigos, mas o que se vê em geral, e aceito por todos, que uma investigação rigorosa seja realizada por especialistas, com recursos e no tempo devido, com o objetivo principal de buscar as causas do acidente, e sugestões do que se fazer para evitá-las.

As barragens de rejeito de mineração tiveram sua tecnologia desenvolvida tal como conhecemos hoje no final dos anos 70 e início da década de 80, muito por força de leis ambientais e a introdução da ideia mais geral de sustentabilidade. De lá para cá, pouco se fez para aprimorar esse conhecimento, havendo maior interesse em métodos alternativos para disposição de rejeitos, que seguramente têm como maior apelo a redução de riscos, mas que não tiveram muito sucesso na sua difusão algo que aconteceu também no Brasil. Aqui se tem um aspecto importante para discussão, onde as melhores práticas disponíveis (BAP=best available practice) estão divorciadas das melhores tecnologias disponíveis (em inglês BAT=best available technology).

O método construtivo de barragens de rejeito com alteamento a montante é de longe o mais usado mundialmente pelas mineradoras para manejo de seus rejeitos. Consequentemente é esperado também um maior número de casos de rupturas de barragens de rejeito que usam esse método. Essa forma de dispor rejeito tem adicionalmente maiores desafios para atender a demanda de segurança exigida por lei e aceita pela engenharia quando comparadas as outras soluções de contenções. Assim, a melhor prática conhecida (BAP) deveria estar em uso pelas empresas que tem essa forma de disposição, independentemente de normas ou leis regulando a atividade, pois a ruptura de uma barragem é sempre catastrófica e de consequências gravíssimas em todos os aspectos.

Cabe então a pergunta, o que fazer para evitar que uma barragem se rompa?  Uma pergunta semelhante seria, como evitar a queda de um avião? Essas perguntas na verdade permeiam toda a atividade humana, pois ninguém conscientemente busca falhar, e no caso da barragem isso não é diferente. É preciso tecnologia, equipes bem treinadas, trabalho sério, recursos, e tudo o mais que traga garantias de segurança de acordo com os riscos envolvidos.

Assim, quando se tem notícia de que um barragem rompeu (ou um avião caiu), o que mais interessa aos técnicos é saber por que falhou. A resposta nem sempre é fácil de se ser encontrada já que pela seriedade do evento, como já se mencionou, há todo um interesse em se evitar o incidente, e por isso todas a atividades de desenvolvimento da barragem desde sua concepção, construção/operação e manutenção se fazem com alto nível de redundância de modo a se evitar a falha. Assim a constituição de uma equipe de investigadores de alto nível, com total acesso às informações e tempo para o trabalho é fundamental para se chegar às causas prováveis.

Dá para antecipar alguma coisa, fazer algum prognóstico para o futuro da mineração em geral, e da disposição de rejeitos em particular? Eu arriscaria que sim, e seguindo o que disse a comissão de Mount Polley, a forma usual de atuar ou lidar com o problema não pode continuar. Melhor entendimento das falhas e dos mecanismos de ruptura para as técnicas atuais se faz necessária, e talvez tenha chegado os dias em que os métodos alternativos comecem a ser estudados com mais seriedade entre nós.

Artigo escrito por: Waldyr Lopes De Oliveira Filho

Imagem: Google