A sustentabilidade na indústria da construção civil

A sustentabilidade na indústria da construção civil

 O processo de crescimento das cidades e aumento da população, ao longo do século XX, trouxe uma série de preocupações quanto a capacidade de sustentação deste processo de crescimento e a possibilidade (concreta) de uma perigosa degradação ambiental e eventual esgotamento de recursos naturais. Em junho de 1972 foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, que reuniu mais de 110 países em Estocolmo, Suécia. A partir desta reunião, conhecida como Conferência de Estocolmo, foi proposto um novo conceito de desenvolvimento, visando uma produção mais inteligente, racionalizada e com o mínimo de desperdício. Surgia, então, o conceito de desenvolvimento sustentável, consolidado após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como Rio 92, realizada no Rio de Janeiro em 1992.

A criação da Agenda 21 definiu objetivos que visavam a promoção do desenvolvimento sustentável dos assentamentos humanos, incluindo: proporcionar habitação adequada para todos; melhorar a gestão dos assentamentos humanos; promover o planejamento e a gestão sustentável do uso do solo; e promover a prestação integrada de infraestrutura ambiental: água, esgoto, drenagem e manejo de resíduos sólidos.

Esses objetivos estão fortemente ligados a um processo de urbanização racional e equilibrada, de forma a garantir um ambiente construído de forma sustentável. A indústria da construção civil, por sua vez, está diretamente relacionada a essa discussão, uma vez que age sobre este ambiente construído, promovendo novos desenvolvimentos urbanos e implantando redes de infraestrutura e transportes. A urbanização, quando realizada sem planejamento e de forma descontrolada é, na verdade, um dos grandes“vilões”da degradação ambiental, mas, paradoxalmente, é também receptora das consequências negativas desse processo. Cidades que crescem sem planejamento e controle sofrem com inundações, poluição, perda de ecossistemas e de valores ambientais, escassez de água, entre outros problemas. A cidade deve, portanto, ser objeto de racionalização, no sentido de buscar a sustentabilidade e, pode-se dizer, dessa forma, que o ambiente construído é resultado das atividades individuais de construção civil.

Os primeiros movimentos no sentido de caminhar em direção a cidades sustentáveis vieram com propostas em larga escala de economia de recursos naturais e de espaço (mantendo áreas preservadas), com conceito de cidades compactas e uso misto do solo, otimizando serviços, diminuindo deslocamentos e consumindo menos energia e recursos.

Qualquer cidade, porém, é um conjunto de edificações, espaços livres e redes de infraestrutura. As edificações, portanto, são as unidades básicas que compõem o tecido urbano. É necessário discutir o ambiente construído, na escala da cidade, também considerando que as unidades básicas desse ambiente (as edificações) estejam preocupadas com o conceito de sustentabilidade e engajadas nessa busca. Nesse sentido, surgem, em microescala, preocupações relacionadas, principalmente, à economia de água, de energia e com o ciclo de vida dos materiais empregados nas construções. Pode-se dizer que essas preocupações permeiam, de forma geral, dois momentos distintos: a fase de construção da edificação e, mais tarde, a fase de sua vida útil.

A fase de construção de uma edificação preocupada com as questões de sustentabilidade engloba a prática da construção racionalizada, em que são considerados: a otimização do processo produtivo, a racionalização de materiais e de tempo, a padronização de projetos, a mecanização de processos e o uso de novas tecnologias. Podem ser citados como exemplos: o reuso de água nos canteiros de obra, o uso de resíduos de construção civil como material reciclado e a opção por materiais cujo ciclo de vida possua menor impacto no meio ambiente.

Já quando se trata da edificação ao longo de sua vida útil, são consideradas, numa construção sustentável, principalmente, questões relacionadas à economia de água e energia. Ainda que a edificação, na sua construção, necessite de um investimento um pouco maior do que aquelas que adotam tecnologias tradicionais, quando se empregam tecnologias visando economia de água e de energia, tanto o meio ambiente é beneficiado, quanto, também, o usuário final, pois a economia perdura ao longo da vida da obra.

Em relação à questão da água, ressalta-se que, por conta dos riscos de escassez hídrica, esse tema passou, recentemente, a ser levado em consideração de forma mais destacada no projeto das instalações hidrossanitárias. O emprego de instalações hidráulicas que utilizem aparelhos economizadores de água, por exemplo, permitem o uso racional da água. Dentre as principais vantagens, podem ser citadas a economia de água como recurso, visto que o que deixa de ser utilizado permanece disponível para uso posterior; a menor geração de esgoto sanitário e a própria economia no pagamento da conta de água pelo usuário. Além do uso racional da água, os edifícios sustentáveis também podem empregar tecnologias alternativas, que transformam água antes descartada em utilizável para fins não potáveis. Nesse caso podem ser citados o reuso de água e o aproveitamento da água de chuva. O reuso se baseia no tratamento de esgoto sanitário proveniente de aparelhos como lavatórios e chuveiros, por exemplo, de forma a melhorar as características desse recurso a ponto de utilizar essa água para fins não potáveis. Já o aproveitamento de água de chuva consiste em coletar as águas pluviais de coberturas e tratá-la adequadamente, também para uso em fins não potáveis, como seria o caso da lavagem de pisos, rega de jardins, dentre outros (como previsto na NBR15.527/2007 “Água de chuva – aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis”, que fornece os requisitos para o aproveitamento de água de chuva de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis). Novas tecnologias como telhados e paredes verdes podem auxiliar no controle dos escoamentos pluviais e reduzir a temperatura interna da edificação, reduzindo o consumo de energia. Essas tecnologias se somam a detalhes do projeto arquitetônico tradicional, como cuidados com a ventilação e iluminação natural, uso de cores adequadas, entre outros, valorizando a busca por edificações mais eficientes.

Considerando essas iniciativas que levam à adoção de técnicas que economizam água potável, geram menor quantidade de esgotos, reduzem o aporte das águas pluviais ao sistema de drenagem, economizam energia, valorizam o ambiente e melhoram a qualidade de vida do seu habitante, dado que a edificação é a célula básica do tecido urbano, vale salientar que há um rebatimento significativo destas ações na escala urbana.

*Este artigo foi escrito por Aline Pires Veról & Marcelo Gomes Miguez, autores do livro Drenagem Urbana, publicado pela Elsevier