Petrobras

A Petrobras conseguirá “dar a volta por cima” e voltar a ser uma empresa com credibilidade no mercado?

Por: José Mauro de Morais¹

Os últimos anos têm sido críticos para a Petrobras: em primeiro lugar foram reveladas, por investigações da Justiça, em 2014/2015, as intervenções políticas na administração da empresa, que resultaram em bilhões de dólares em desvios de recursos, em benefício de ex-dirigentes da companhia e de partidos políticos. Como segundo fator crítico, os lucros da companhia sofreram o impacto dos controles de preços que o governo exerceu sobre os preços da gasolina e do óleo diesel importados, que foram mantidos, de 2011 até o terceiro trimestre de 2014, abaixo do custo de importação.  Esses controles reduziram os lucros da Petrobras, afetando negativamente sua capacidade de investimentos na exploração e produção de petróleo.

Os dois fatores – desvios de recursos e prejuízos na venda de combustíveis  importados – prejudicaram a imagem da Petrobras, e hoje impedem que a empresa levante nos mercados financeiros os recursos de que necessita para aplicar nos campos de petróleo e alcançar as metas de produção que projetou em seus Planos de Negócios, isto é, passar da produção total de 2 milhões de barris/dia de petróleo, em 2014, para 4,2 milhões de barris/dia, em 2020.

Diante dos fatos acima, a grande pergunta que se faz é: conseguirá a Petrobras se recuperar, no futuro próximo, das enormes perdas financeiras e em sua imagem, voltando a ser uma companhia com boas avaliações nas agências de risco e credibilidade para acessar os mercados de capitais? O que se sabe é que dificilmente as metas de produção, nas mesmas dimensões acima, podem ser buscadas nos próximos anos, em razão da diminuição de sua capacidade financeira e das perdas de sua rede de grandes fornecedores de navios e de serviços para o setor petrolífero.

Porém, a Petrobras mantém um enorme ativo, baseado em suas imensas reservas de petróleo no pré-sal, no grande contingente de capital humano especializado e no estoque de conhecimentos tecnológicos, que devem constituir os fundamentos de sua recuperação, após o equacionamento dos problemas contábeis derivados dos desvios de recursos. As capacitações tecnológicas da companhia foram desenvolvidas ao longo de quarenta anos de explorações de petróleo na plataforma marítima brasileira. Desde que descobriu petróleo em águas rasas da Bacia de Campos pela primeira vez, em 1974, ela vem colecionando uma série de conquistas: a descoberta de petróleo em águas profundas, em 1984, a conquista de prêmios internacionais na Offshore Technology Conference, de Houston, pela produção de petróleo em águas profundas – o último destes prêmios foi conquistado este ano – e as descobertas de imensas jazidas de petróleo na área geológica do pré-sal, em 2006-2007. Desde aquele ano inicial, até 2014, as reservas de petróleo da Petrobras cresceram seguidamente, em todos os anos, de 955 milhões de barris, em 1974, para mais de 16 bilhões em 2014, que a levaram a ocupar o lugar de líder mundial na produção de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. Esses feitos são realçados se comparados com o que vem ocorrendo com outros países produtores de petróleo, como o México, a Inglaterra e a Noruega, cujas reservas e produção de petróleo vêm declinando desde a década passada.

As reservas descobertas até agora no pré-sal são estimadas em 40 bilhões de barris; esse número elevará as reservas brasileiras para mais de 55 bilhões de barris, no mínimo, pois a continuação das explorações no pré-sal deverá levar à descoberta de novas jazidas de petróleo. Aqueles valores, comparados com as reservas dos grandes países produtores de petróleo, significam que o Brasil deverá estar entre os 10 maiores países do mundo em termos de reservas quando as reservas do pré-sal forem reconhecidas como reservas provadas.

A companhia detém, ainda, o recorde mundial em profundidade no uso de plataforma de produção de petróleo no mar, com a instalação, em 2012, no Golfo do México, do navio de produção de petróleo FPSO Pioneer, em águas com a profundidade de 2.500 metros. Até então, o recorde anterior havia sido obtido em 2010, pela petroleira Shell, com a instalação da plataforma de Perdido no Golfo do México, em lâmina d’água de 2.450 metros.

Para conseguir alcançar os feitos acima a Petrobras desenvolveu, nesses 40 anos de explorações no mar, um conjunto variado de tecnologias, muitas delas utilizadas em outras regiões mundiais produtoras de petróleo no mar. Esse conjunto de desenvolvimentos formou a base das novas tecnologias que estão sendo utilizadas para permitir a produção de petróleo no pré-sal das Bacias de Santos e de Campos. Produção que, em junho de 2014, superou a marca dos 500 mil barris/dia, e que em janeiro de 2015 atingiu 669 mil barris/dia, isto é, 28% do total da produção brasileira de petróleo.

Portanto, enquanto não são superados os constrangimentos financeiros trazidos pelas interferências políticas e pelos atos de corrupção, a Petrobras deve seguir demonstrando sua grande capacidade tecnológica, que forma a base de suas realizações na produção de petróleo, no presente e no futuro. A companhia deve seguir aumentando sua produção de petróleo no pré-sal, que vem ascendendo desde 2014, com o objetivo de demonstrar que os fatos ocorridos não afetaram sua capacidade operacional de produzir petróleo em condições complexas no mar.

 

¹ José Mauro de Morais  é graduado em Economia pela Universidade de São Paulo (1972) e Mestre pela Universidade de Brasília (1973/74). Atualmente, ocupa a função de técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), onde tem desenvolvido pesquisas nas áreas de compras governamentais, crédito para pequenas e médias empresas, instrumentos de financiamento à inovação tecnológica, análise de tecnologias de exploração de petróleo, políticas de E-Health, e competitividade das empresas brasileiras. É também autor do livro Petrobras – Uma história das explorações de petróleo em águas profundas e no pré-sal, publicado pela Editora Elsevier.